terça-feira, 7 de outubro de 2014
Minha avó Rosa
É cada vez mais dificil estar em casa. O ambiente é pesado, triste, sem esperança. Com a doença da minha avó eu mudei um pouco. Pensava que as piores coisas só aconteciam aos outros. Enganei-me. O tempo é crucial para estar com ela, e por mais que eu queira aproveitar os últimos dias, últimas semanas ou últimos meses, é cada vez mais dificil para uma adolescente como eu ficar por perto. Chamem-me de insensível mas é para mim uma demasia crueldade ter de assistir à minha segunda mãe, uma das mulheres que me criou, que mais teve orgulho em mim, falecer aos poucos. E eu quero estar por perto. Eu quero ver televisão com ela, quero rir-me com ela, quero falar do Diogo com ela, mas é tudo tão dificil com ela neste estado que eu não aguento muito mais. Eu só quero poder voltar atrás no tempo e reverter a noticia de ela ter cancro no pulmão, maligno e alzeimer ao mesmo tempo. Eu aguento muita coisa, mas é a minha familia, é a minha identidade! E por mais que não faça sentido a muitas pessoas eu afastar-me de vez em quando de casa, eu não consigo ficar muito tempo. Porque a minha cabeça suporta muitas ideias deprimentes mas não suporta o facto de a minha avó estar a morrer e não poder fazer nada para resolver isso. Não consigo ouvi-la tossir por muito tempo, não consigo estar ao pé dela a perguntar-me sempre a mesma coisa. Porque ela é a última pessoa a ter culpa disto e custa-me imenso ter de vê-la passar por isto. E a pior coisa, é saber que brevemente tudo vai acabar e um pouco de mim vai deixar de existir. Eu quero casar aos olhos dela, quero ter filhos aos olhos dela. Quero que ela me veja no primeiro trabalho. Quero tanta coisa e nenhuma delas vai acontecer. Só espero que ela me perdoe o facto de não poder estar todas as horas com ela, porque por muito que queira não suporto vê-la desaparecer da minha vida.
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